Relembrando Zumbi
Em 1545, o donatário da Capitania da Paraíba do sul, Pedro de Góis escrevia ao
seu sócio em Lisboa, Martim Ferreira, solicitando a remessa urgente para a
referida capitania de “ao menos setenta Negros de Guiné”. Ele contava dali
a um ano e meio despachar para Portugal, duas mil arrobas de açúcar, desde que
seus sócios providenciassem a vinda do maior número possível de colonos e,
principalmente, de escravos africanos. Em 1559, com Dona Catarina como Regente
de Portugal, assinada a permissão para que cada um dono de engenho no Brasil,
pudesse comprar até 120 escravos africanos. Era o passo inicial para um famigerado
sistema de dominação e escambo que, durante três séculos dominaria as três
Américas e, em específico, o Brasil.
Cinqüenta anos mais tarde, este tráfico crescera à proporções estarrecedoras
envolvendo desde a Igreja Católica e Protestante até o mais simples
fazendeiro, transformando a proporcionalidade entre brancos e negros no Brasil
à dois negros para cada branco. Como é sabido, o tratamento que os traficantes
e os senhores de engenho davam aos escravos era extremamente desumano, chegando
mesmo às raias do sadismo. Os escravos que na África, em suas tribos, eram
rivais de outras tribos, no Brasil se uniram contra o colonizador português e,
unindo-se, trocaram informações e conhecimentos os quais foram úteis aos
processos de fugas e instalação de refúgios. Estes foram chamados de
Quilombos.
Em apenas cinqüenta anos os quilombos foram aparecendo por toda a colônia
levantando uma bandeira de resistência contra o colonizador português. Tal
fato, não aconteceu nas colônias americanas do norte devido aa massificação
protestante que não permitia a identificação étnica dos escravos,
limitando-os à um primeiro nome e o sobrenome do proprietário dele. No Brasil,
obviamente foi estabelecido um sistema de combate aos quilombos mediante a
contratação de bandeirantes, mercenários e capitães do mato. Em grande parte
vencedores, os contratados dos fazendeiros levavam a vantagem de estarem bem
municiados e respaldados por recursos financeiros, enquanto os habitantes dos
quilombos contavam apenas com os recursos que os locais lhes fornecia e suas táticas
africanas de origem.
No começo do século XVII foi construído em Alagoas o primeiro Quilombo dos
Palmares, o mais famoso de todos do Brasil. Palmares era uma verdadeira cidadela
de resistência à todos os ataques vindo por parte dos fazendeiros. E o foi por
quase um século. O complexo de Palmares começou com o quilombo do Amaro,
depois com o Sucupira, seguido do Macaco e finalmente o quilombo do Gigante.
Exceto o Quilombo do Gigante, todos os demais foram destruídos pelos próprios
ex-escravos. Estima-se que a população de Palmares tenha chegado a cerca de 25
a 30.000 pessoas, no período compreendido entre 1620 e 1695.
A organização Palmarina em nada devia aos costumes e leis européias, vez que já
a tinham na Velha África. A descrição do navegador holandês Olfert Dapper em
1602 relata a cidade de Benim na áfrica Ocidental( Nigéria) como “sendo uma
cidade composta por ruas largas e perpendiculares com casas construídas lado a
lado, com um ou dois pisos, sendo que tais ruas de tão extensas não se vê o
fim das mesmas. Toda a cidade é ladeada por grandes paliçadas e profundos
fossos”. Imagina-se portanto que o famoso Quilombo do Gigante em Palmares
construído pessoalmente por Zumbi tenha sido 85 anos depois deste relato algo
igual ou superior a cidade de Benin. Caso contrário, não teriam sido necessários
11.000 soldados e 5 anos de cerco com artilharia pesada e canhões para destruí-lo.
Os habitantes de Palmares, liderados por Zumbi e Gangazuma e estes assessorados por
hábeis generais como Bambuza, Cynianta, Dumdum, Mukumbe, Papua, Shegun e outros
valorosos membros das elites tribais africanas trazidas para o Brasil tinham uma
estrutura de defesa e uma capacidade de resistência somente comparável à
cidade de Tróia na história da humanidade.
Dentro do campo da subsistência diária, líderes como o sumo sacerdote Bambushê
Adinimodó e o sacerdote Kaundê obtiveram ensinamentos sobre agricultura extensiva
e rotativa sendo esta última completamente ignorada por parte dos fazendeiros brancos.
A resistência de Palmares ante aos inúmeros ataques que sofreu por tropas enviadas pelo
Governador geral do Brasil em Salvador e pelo governador geral da Capitania de
Pernambuco em Recife só foi possível mediante a doação de armamentos que
lhes foi feita por Maurício de Nassau durante a permanência dos holandeses no
Brasil, de 1637 a 1654.
A terra pertencia a todos e o seu produto era dividido por todos. Cada habitante
tinha sua residência e podia plantar dentro da área de sua residência o que
bem entendesse. Os trabalhos de construção, preparo de lavouras e estoque eram
divididos por todos. As crianças eram ensinadas e preparadas desde a infância
para todos os eventos desde os costumes tribais até a guerra. As mulheres eram
encarregadas da tecelagem e guarda do estoque de alimentos nos silos destinados
a tal.
Tal foi a importância da estrutura do Quilombo de Palmares que seus produtos em
lavoura e artesanato foram durante anos comercializados com os habitantes das
cidades de Recife, Una, Porto Calvo e Seriahem obtendo a preferência dos habitantes ante
aos produtos oferecidos pelos fazendeiros locais. Uma das razões desta preferência devia-se
a melhor qualidade e tamanho dos produtos de Palmares conseguidos com suor, mas sem lágrimas.
Enquanto existiu, o Quilombo dos Palmares foi a maior dor de cabeça que Portugal e
Algarves tiveram no Brasil durante o século XVII, levando o Conselho Ultramarino de Lisboa
à loucura total e desespero, investindo altas somas para sua destruição. 1.500 fidalgos
portugueses viviam estritamente do tráfico de escravos para o Brasil, o qual, atingiu a
soma de 8 milhões de almas. Zumbi dos Palmares deixou uma grande lição na sua luta contra
o colonizador branco: A liberdade é um bem precioso demais para ser desperdiçado. Muitos
serão libertos e novamente se jogarão como escravos. Para estes a liberdade jamais existiu
e jamais poderá existir.
Palmares foi finalmente destruído no dia 20 de novembro de 1695, depois de pelo menos 5
anos de ataques sucessivos liderados por Domingos Jorge Velho, André Furtado de
Mendonça e Bernardo Vieira de Melo em expedições financiadas pela Coroa
Portuguesa e fazendeiros locais. Por este feito, ambos receberam concessões de
sesmarias e prêmios, depois de levarem a cabeça de Zumbi (?) a Recife. Mas
tanto Jorge Velho, como André Furtado de Mendonça e Bernardo Viera de Melo tiveram ao
invés da glória, um fim trágico. O primeiro, após radicar-se no Ceará, morreu no total
esquecimento. Bernardo Vieira de Melo foi preso em Porto Calvo a mando do Governador Caldas
e remetido à Lisboa, onde morreu na prisão. André Furtado de Mendonça, preso por
envolvimento com uma insurreição, foi assassinado por desconhecidos.
E quanto a Zumbi?
Zumbi está cada vez mais vivo em nossa história, não só como o herói do povo negro, mas como um
ícone da luta pela LIBERDADE.
(Dados extraídos do livro Zumbi dos Palmares de Eduardo Fonseca)