Prefácio - Arnaldo Niskier



PREFÁCIOS


PREFÁCIO DO LIVRO "ZUMBI DOS PALMARES",
por ARNALDO NISKIER


Anseio de Liberdade

O anseio de liberdade dos escravos de origem africana no Brasil, traduzido na fuga e formação de quilombos em múltiplos locais do nosso vasto território, manifestou-se desde o final do século XVI até as vésperas da assinatura da Lei 3353, de 13 de maio de 1888, que pôs fim à escravidão em todo o Império.

A lavoura canavieira e a consequente proliferação dos engenhos nas capitanias de Pernambuco e da Bahia absorveram a maior parte dos escravos introduzidos no país nos séculos XVI e XVII, provenientes, em sua maior parte, das feitorias portuguesas localizadas na África Ocidental, principalmente na região sudanesa e na Guiné.

Foi nas matas e serras então pernambucanas que surgiram e se desenvolveram os grandes quilombos dos Palmares.

A descoberta do ouro e dos diamantes em terras que viriam a constituir a Capitania de Minas Gerais e também nos longínquos sertões de Mato Grosso e Goiás deslocaram o eixo econômico do Brasil para essa vasta zona interiorana, onde centenas de milhares de escravos foram utilizados na árdua tarefa de remoção do cascalho depositado no leito dos cursos de água à procura do precioso metal.

Aí também se formaram quilombos de proporções quase iguais às dos Palmares. Os de Campo Grande e do Abaeté se destacavam pelo número de escravos que os habitavam, milhares dos quais foram sacrificados na lutas contra as sucessivas expedições enviadas pelas autoridades portuguesas.

Depois da Independência, as fazendas de café ocuparam grande parte da Província do Rio de Janeiro, incluindo as imediações de sua capital e, ultrapassando os limites provinciais, se espalharam, também, por vários municípios de São Paulo.

Inevitavelmente, apesar da proximidade das grandes cidades, os quilombos não tardaram a se organizar, sobretudo nos locais de maior concentração de propriedades rurais. Em São Paulo e nas mais importantes vilas fluminenses os escravos abandonavam em grande número suas senzalas e se concentravam em pontos estratégicos, acobertados, nessa época, pela proteção que recebiam dos membros de clubes e sociedades que lutavam pela extinção da escravatura no Brasil.

Tomando por lema o desenvolvimento e a destruição dos quilombos dos Palmares, no período que compreende praticamente todo o século XV11, Eduardo Fonseca Júnior, autor do Dicionário Yorubá (Nagô)-Português, nos apresenta uma narrativa romanceada da epopéia dos negros que, nas matas de Alagoas, desbarataram várias expedições portuguesas e holandesas, que haviam tentado reduzi-los ao cativeiro. A obra tem por título Zumbi dos Palmares - A história que não foi contada. Na literatura brasileira vários foram os poetas - e entre eles com destaque Castro Alves – que celebraram em seus versos a prolongada resistência da Tróia Negra.

Em 1885, Jorge Velho publicou um livro - Os Palmares – que denominou "romance nacional histórico", numa época em que a campanha abolicionista já adquirira extraordinária expansão em quase todas as províncias do Império.

Aproveitando seus conhecimentos da língua Yorubá, Eduardo Fonseca transcreve em seu romance extensos trechos de cantigas africanas e, nas páginas Finais do livro, oferece aos leitores detalhadas explicações sobre vários aspectos da vida quotidiana dos habitantes dos quilombos – com seus costumes, rituais religiosos, linguagem usada, estrutura social, reconhecimento das origens africanas de cada grupo, características físico-raciais, instrumentos musicais, armas, lendas, símbolos usados nos cultos e na magia, fortificações etc. O romance torna-se didático graças a essa apreciável fonte de informações.

Por fim, o narrador abre especial destaque para a campanha militar em sua fase final, já com a presença do Zâmbi (Zombi ou Zumbi), na derradeira e malograda tentativa de repelir os invasores luso-brasileiros.

A batalha final é descrita com atenção especial e, deixando de parte o rigor da documentação histórica da época, cabe ao personagem principal, segundo o autor, desaparecer na confusão da última batalha, depois de esgotados todos os recursos de defesa e do extermínio da quase totalidade de seus seguidores.

A narrativa de Eduardo Fonseca Júnior termina com uma mensagem confortadora que deveria, se possível, ser levada a todos os locais onde surgiram novos quilombos: "Zumbi está vivo!"

Para melhor orientar os leitores, o autor fez juntar a seu livro Bibliografia Sistemática. Dela faz parte o precioso estudo do historiador português Ernesto Ennes - A Guerra nos Palmares - (Subsídios para a sua história), um dos mais bem cuidados trabalhos escritos sobre o assunto, sobretudo pela riqueza da documentação transcrita, colhida, em sua maior parte, na Arquivo Histórico ultramarino, de Lisboa.

Cumpre mencionar, ainda, que Eduardo Fonseca inclui entre os personagens de seu romance, Yschac Abuab da Fonseca, o famoso rabino que exerceu suas funções no Recife, de 1642 a 1654, filho de Isabela da Fonseca e nascido em Portugal, em 1606.

O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro publicou, no tomo XXII, de sua Revista (1859) uma Relação das Guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do Governador D. Pedro de Almeida, de 1675 a 1678. Desse relato consta a seguinte indicação sobre o personagem que deu título ao romance de Eduardo Fonseca Júnior: "Zâmbi – que quer dizer Deus da Guerra – era negro de singular valor, grande ânimo e constância rara. Este é o espectador aos mais porque a sua indústria, juízo e fortaleza aos nossos serve de embaraço, aos seus de exemplo; ficou vivo, porém aleijado de uma perna" (A narrativa só atinge o ano de 1678 - Zâmbi, Zombi ou Zumbi só viria a morrer quase vinte anos depois).

Não temos a menor dúvida de que o prof. Eduardo Fonseca alcançou plenamente seu objetivo, contando-nos, sem se prender em demasia à implacável rigidez dos documentos oficiais, a história de um homem que lutou até a morte em defesa da liberdade de seus companheiros de sofrimento.

Arnaldo Niskier - Academia Brasileira de Letras

Contato | Anuncie na Yorubana | Desenvolvido por Yorubana - 2007-2011