Prefácio - Franco Montoro



PREFÁCIOS


PREFÁCIO DO LIVRO "ZUMBI DOS PALMARES",
por FRANCO MONTORO


Resgate da Verdade

O Processo de formação da consciência nacional do Brasil teve entre suas notas características uma estranha concepção de que a ciência histórica só comporta o mundo do branco.

Por isso os caminhos da formação histórica do Brasil têm uma lacuna que precisa ser corrigida. Falta incluir um capítulo sem o qual nunca poderemos encontrar o verdadeiro sentido do que se possa chamar de "povo brasileiro": O papel, a importância e o significado do negro e da raça negra na formação e no desenvolvimento do país.

Em seu sentido real, a história do Brasil, em grande parte, confunde-se com a história da comunidade negra. A ideia de nação, de povo, de história real, perde o sentido caso não se tenha presente, em sua plenitude, a importância econômica, social, política e cultural da raça negra na construção do hoje Brasil. Povo brasileiro sem ideia de África ou de raça negra é um inverdade histórica e uma aberração racista.

O resgate da verdade abrange toda história, desde os primeiros tempo do sistema colonial até as últimas conquistas do mundo moderno. Os séculos passaram. Meio milênio aproxima-se. Isso é tempo para a própria história humana. Dá para continuar a omissão? Até quando teremos uma meia história?

É tempo de completarmos o Brasil.

O Brasil incompleto é fruto da ignorância, da falsa compreensão que passou de geração para geração a ideia de que o negro foi escravo e portanto, objeto, sem história e sem papel.

Sim. O negro foi decisivo para construir o Brasil. Nada lhe foi perguntado. Sem ler, sem escrever, sem nenhuma parcela de responsabilidade pelas decisões, foi desrespeitado e esquecido. Gerações mais gerações persistiram, sobreviveram, impuseram-se. Construíram uma grande parte de nossa base material. Marcaram nossa cultura. Viveram, vivem e são parte de nós.

Enfim, desta Nação milhões de braços negros fizeram parte essencial. Ela é, também deles. Eles são, também, nós.

Felizmente outro cenário começa a se descortinar em direção a novos horizontes. Não apenas historiadores ilustres, poetas estudiosos e cientistas sociais apontam esse caminho, mas a comunidade negra mesma é que assume, agora a responsabilidade de suprir as omissões históricas, ocupar seu espaço, revelar sua saga, o orgulho agrilhoado e o constante ideal de liberdade.

No livro "Zumbi dos Palmares - A História que não Foi Contada" o professor e escritor Eduardo Fonseca Júnior nos oferece uma contribuição valiosa, cheia de páginas de grande importância para o resgate do capítulo que falta à nossa história.

A "ciência" oficial nos ensinou o desdém e até mesmo o desprezo sobre a figura e a atuação de Zumbi, o grande herói do povo negro no Brasil, O Professor Fonseca, em sua obra, nos ensina, não apenas o que e quem foi Zumbi. A opressão escravista confronta-se aí com o permanente ideal de liberdade e de igualdade. Zumbi simbolizou, e simboliza ainda, a busca da dignidade e da igualdade. Zumbi é a negação da escravidão, é antítese à toda discriminação. E não ao racismo e à negação do direito, em função de raça ou de cor. É não ao preconceito.

"As lembranças são o grande legado que deixaremos aos nossos Filhos, irmãos!" diz um dos personagens. "Zumbi dos Palmares - A História que não Foi Contada" relata a vida e a luta dos quilombos, em pleno século XVII, descortinando suas raízes, sua construção social e cultural e seus mitos. A obra é reconstrução histórica e é literatura. É a permanente busca da verdade.

Através de suas páginas, aprendemos que o verdadeiro herói da raça negra é Zumbi e não os personagens da história oficial. Sua figura, tão bem retratada por Eduardo Fonseca Júnior, é um conjunto de carisma, coragem, valores morais, estratégia na guerra e na paz, sintetizando o espírito de uma raça que, longe da submissão duramente imposta, lutou com bravura, heroísmo e poucas armas, contra a escravidão e a dominação. E ainda segue lutando como mostra o autor. "Meus companheiros, o Zumbi tem razão. Não nos podem vencer. Nós somos a liberdade e a liberdade não morre."

A beleza da construção literária confunde-se com a busca do libertador da raça oprimida: "Aquele era o salvador de seus infelizes companheiros de raça, aquele era o homem que amava a liberdade sobre todas as coisas. Aquelas mãos negras e fortes haviam aberto no seio da América um abrigo para os deserdados filhos da África Negra." Era Zumbi.

Em páginas como esta a comunidade negra se afirma. Ocupa seu espaço. Reconstrói a sua a e nossa história. Este é o caminho. Parabéns. Zumbi está vivo.

Franco Montoro - Deputado Federal e ex-Governador do Estado de São Paulo

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