Prefácio - Maria Beltrão



PREFÁCIOS


PREFÁCIO DO LIVRO "BRASIL MESTIÇO",
por MARIA BELTRÃO


Sambaquis, uma questão de tempo e espaço

Em BRASIL MESTIÇO, Eduardo Fonseca Júnior enfoca os ícones simbólicos das heranças étnicas formadoras hoje, da população dos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo e mais precisamente do litoral destes estados, para mostrar que o Brasil é "MESTIÇO", fato que impediria a existência de quaisquer tipos de segregação racial ou discriminação social. Embora não deseje polemizar ou questionar as teses sobre os sambaquis, Eduardo dá a sua opinião, entendendo que as divergências das teses científicas sobre o assunto devem ser entendidas como uma questão de tempo e espaço.

Não se está diante da primeira obra do autor. Tampouco sou a primeira a ter a tarefa de prefaciá-lo. Por essa razão, tenho a missão de honrar aqueles que já tiveram a oportunidade de conhecer e escrever sobre outros livros assinados por Eduardo Fonseca Júnior. São nomes como o de António Houaiss, Darci Ribeiro, Austregésilo de Athaíde, dentre outros, os que me antecederam, sempre com o brilhantismo que lhes é característico. Daí a responsabilidade que este ofício me impõe.

Mas Eduardo nada tem de hermético. Muito pelo contrário. Narrado de forma livre, sem se prender ao eruditismo da linguagem, que caracteriza a cegueira do conhecimento, ele nos apresenta uma exposição dos fatos constantes da "História Oficial", com um outro olhar, dando explicações que não se encontram nos livros escolares, como se fora um detetive estabelecendo as conexões que são omitidas no relato histórico oficial. É uma leitura leve e instigante, que nos transporta ao passado pátrio, mas, também, para o nosso passado de estudante, revirando a nossa memória, nos levando para a acolhedora escola da nossa infância quando tudo era um sonho e um desafio de vencer, e para, as professoras, os professores, os mestres universitários e os doutores que nos argüiram em nossas teses de mestrado e doutorado, em um país que despertava para um futuro sem a burocracia que sempre o obstaculou de resolver seus problemas.

Eduardo escreve com a liberdade do apaixonado por seu país. Apresenta e mescla o ontem com o hoje, partindo deste como quem olha por uma janela para descrever a imagem que está a sua frente. Não hesita em ver hoje, os desdobramentos de ações e ou, decisões tomadas ontem pêlos governantes que estiveram à frente da nação brasileira. As marcas deste Tempo e deste Espaço aos olhos de Eduardo, são facilmente visíveis para não dizer gritantes.

Hoje, em plena globalização, em que o tema cultura indígena ganha as páginas dos jornais e imagens na televisão pelo sensacionalismo negativo que podem propiciar, seja pela mortalidade infantil entre os indígenas do Mato Grosso, ou o confronto entre índios e garimpeiros de diamantes (cuja exportação ilegal vem ameaçando o nosso Certificado de Qualidade Internacional), ou mesmo o escândalo envolvendo lideranças indígenas, ou disputas de marcações de terras, é neste ponto, que Eduardo Fonseca Júnior resgata a dignidade, a importância e a trajetória do Indígena Brasileiro.

Enfim, Eduardo Fonseca percorre todos os caminhos na sua busca de construir uma outra História do Brasil. Uma história que se diferencia daquela oficial. Com habilidade de um literato que é, Eduardo se apropria dos fatos históricos conhecidos para lhes conferir uma visão pitoresca e irreverente, dando-lhes às vezes um sabor anedótico - porém simplesmente real - que deixa o leitor mais formal estupefato com sua versão.

Tudo isso acaba por tornar a leitura de Brasil Mestiço, mais picante, criando naquele que lê uma expectativa com relação ao que virá nas páginas seguintes, ou seja, uma provocação para quem tem suas raízes fixadas no purismo acadêmico. Mas, o objetivo do autor de BRASIL MESTIÇO, é tão somente provar a estreita ligação entre o Homem Sambaquiano, como ele chama aos construtores dos sítios arqueológicos do tipo Sambaqui, ainda existentes no litoral sudeste brasileiro, e a Tribos Tupis. Por essa razão, se detém unicamente aos trechos dos estudos feitos pêlos especialistas onde essas provas são evidentes e ratificam a existência do chamado "ELO PERDIDO", entendendo que todas as provas apontam por juntá-los, ligando-os de certa forma.

Estudos lingüísticos e etnológicos parecem demonstrar que os Tupis-Guaranis teriam chegado costa brasileira pelo menos a 1500 anos antes da "descoberta do Brasil". Para Eduardo Fonseca Júnior há um erro de metodologia de estudo que consiste em rotular a História do Brasil em três blocos: o primeiro que corresponde à chegada do branco aos dias atuais; o segundo, isto é, os 1400 anos que antecedem a chegada do branco, especificamente referindo-se às tribos indígenas, e o terceiro, que remonta aos primórdios da ocupação humana.

Sua contribuição consiste em oferecer ao público leitor acadêmico ou não, uma História do Brasil real, com origem, verdade, princípio e meio, pois o fim, como expressamente afirma, "cabe a nós fazer". Entende que falar sobre Sambaquis e seus habitantes é um desafio sem proporções definidas. Porém frisa, que o trabalho é apenas sua opinião (pag. 19) sobre o assunto, pois objetiva unicamente resgatar, como um todo, a História do Brasil anterior à chegada dos colonizadores. Para tanto, se apóia no que chama de "pesquisadores independentes das Bandeiras" que anotaram e escreveram coisas que podem mudar o entendimento da nossa história.

Eduardo atribui ao colonizador português a responsabilidade pela destruição das provas que ligaram as tribos litorâneas do período de com o Homem do Sambaqui. Mas também critica os pesquisadores por estabelecerem a data de 1500 como limite de estudo, erradamente, a seu ver, rotulando o período de "Pré-História do Brasil".

Em suma, trata-se de uma apaixonada releitura da História brasileira, onde de forma entusiástica, Eduardo Fonseca, reconta, a partir de documentos históricos e resultados de pesquisas cientificas, as quais são, realmente históricas e arqueológicas, sua opinião sobre como se deveria propor e entender a História do Brasil. É sem dúvida alguma, a história interpretada a partir da visão de um apaixonado brasileiro por sua terra e por suas origens. Como todos nós deveríamos ser.

Rio de Janeiro – Maria Beltrão – Arqueóloga, Geóloga, Escritora e Professora

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