PREFÁCIO DO LIVRO "BRASIL MESTIÇO",
por RICARDO CRAVO ALBIN
O Brasil mestiço de Fonseca
Não é de hoje que acompanho as lutas, as teses, as histórias provocadas por Eduardo Fonseca. Ele as faz, todas, encharcadas pelo entusiasmo, inundadas pelo correr do sangue que jorra abundante não apenas em suas veias, mas em seu espírito.
Não, de hoje não é, porque acode-me agora mesmo a lembrança de Eduardo mergulhado nas filmagens de "Como era gostoso o meu francês", essa obra-prima de Nelson Pereira dos Santos rodada entre 1969 e 1970 em Paraty. Ali dele recordo o apaixonado historiador a desenvolver teses copiosas sobre o tratamento que o país deveria dar aos índios remanescentes, sobre o massacre dos povos da floresta nesses quinhentos anos, sobre os roubos e esbulhos que o país sempre impôs aos mestiços.
Este "Brasil Mestiço" não é senão a confirmação de quase tudo o que Eduardo Fonseca apregoou ao longo de tantas décadas, seja em conversas com amigos, seja em palestras públicas, seja até em outros livros de sua autoria.
Porque, de fato, arrisco dizer - embora já sem esperanças maiores em relação à preservação da memória e da verdade (hoje cada vez produto mais e mais escasso) - que nosso inquebrantável Fonseca perora aqui suas teses generosas na defesa tanto da memória de um país, quanto de suas cada vez mais frágeis verdades.
Como não se considerar, além de conveniente, amplamente bela sua tese de que a matriz preferencial da mulher brasileira foi a mulher dos povos conquistados a partir de 1500? As matrizes das mulheres indígenas fecundadas pelos varões portugueses durante os cem primeiros anos desses quinhentos de misturas fizeram da índia brasileira a nossa mãe preferencial. Brás Cubas e João Ramalho (este casado com Bartira, filha de Tibiriçá) tiveram cada um pra mais de cinqüenta brasileiros, cujas gerações proliferaram e só viriam a se mesclar com os africanos escravos cem anos depois. Quanto às mulheres portuguesas, essas coitadas só aportaram à colônia em número significativo a partir de 1750.
Segundo Fonseca, já em 1610 havia por cá cem mil portugueses, todos eles (ou quase) fornicando e fecundando as índias, na maioria doces, amáveis e sem quaisquer noções de pecados.
Outra tese igualmente polêmica - mas com traços muito acentuados de verdadeira - é considerar os índios não-antropófagos. Os índios comeriam as carnes dos portugueses se fossem totalmente idiotas, argumenta nosso autor com forte cheiro de ironia. Ele conclui que os índios dispunham da melhor caça e do mais qualificado peixe e jamais poderiam tolerar comer aqueles portugueses fedidos, sujos e perebentos. Fato concreto, sim, era que até 1824 matar o inimigo e exibir-lhe publicamente pedaços seria até normal - assim foi com a cabeça do Tiradentes, nosso herói nacional. Ou com outro ilustre grande brasileiro que foi o cacique Aimberê, herói brasileiro que teve o corpo espetado em pau alto na Praia do Flamengo até ser totalmente devorado por urubus. Isso séculos antes de Tiradentes.
A história do Bispo Pero Fernandes Sardinha teria sido propositadamente um exemplo típico do antropofagismo indígena por motivos tão somente políticos. Ou seja, o fato de ele ter sido devorado pêlos caetés na costa alagoana foi o argumento de que os portugueses se valeram para dizimá-los e ocupar sem problemas maiores todas as Alagoas.
Na verdade, ele teria morrido no próprio naufrágio, mas o ardiloso recurso de dizê-lo devorado valeu, inclusive, a José de Anchieta uma ida ao rei de Portugal para denunciar os silvícolas.
Essa história, portanto, de considerar o silvícola um bárbaro não era senão uma estratégia para dominá-lo, escravizá-lo ou, o mais, fácil, poder exterminá-lo.
Outra tese de Fonseca: o Brasil é o único país colonizado que fala uma língua própria, já que o português daqui é quase autônomo porque incorporou milhares de palavras indígenas e africanas. Aí sim, o Brasil foi verdadeiramente emprenhado pelo amarelos e pêlos negros, que nos legaram uma contribuição fundamental, uma língua brasileira, mimoseada por milhares de palavras desconhecidas do português de Portugal e das outras colônias: o Brasil inteiro é toponímico, vai da Paraíba ao Paraná, com nomes indígenas e africanos a nomear a maioria e a quase tudo definir.
Fonseca atira petardos em várias direções, alguns até dir-se-iam embebidos por "curare".
Como, por exemplo, ao afirmar que a Escola de Sagres não tinha cartógrafos, insistindo que sua única importância foi ter Vasco da Gama nos seus quadros. Já Américo Vespúcio, que aporta à Baía da Guanabara aos 2 de janeiro de 1502 e que segue até o rio da Prata em missão de reconhecimento / descobrimento, era exímio cartógrafo e chegou a enviar a Dom Manuel de Portugal preciosas cartas náuticas. Não sem antes fundar Cabo Frio em 1503, uma das primeiríssimas povoações portuguesas em terras dos brasis.
Quanto à louvação, ou melhor, o preito de homenagem a dois gigantes dos gentios, Fonseca não faz por menos: considera Cunhambebe como o dono legítimo de São Paulo, enquanto Aimberê era o chefe inquestionável da Baía de Guanabara (que significa o seio do mar, a mãe que tudo alimenta). O segundo deslocou-se agilmente até Piratininga para resgatar sua Iguassu, outra matriz da mulher brasileira. Os tamoios eram mais que um povo, eram uma nação. E a Confederação dos Tamoios juntou todo o orgulho dos habitantes da terra, nação que ia de Ubatuba (Iperoig) até São Mateus, no rio Paraíba do Sul.
Falando sobre as nações indígenas, um dos pontos mais altos deste livro será o levantamento de todas elas, ou seja, os grupos dos primeiros habitantes do que é hoje politicamente reconhecido como a nação brasileira.
Dos pataxós na Bahia (dois de seus caciques foram colocados como munição nos canhões, explodindo-os como balaços humanos, bem antes de Galdino ser incendiado em Brasília) aos goitacás (e não goitacazes, já que o plural se faz com o S inicial agregado à palavra), dos maranaguaras (peles vermelhas, que foram até o Maranhão) aos guaranis do sul do país (e do continente), os únicos que se comparam aos nossos silvícolas.
Finalmente, Eduardo Fonseca acentua - com vigor juvenil - que o índio estava no Brasil há doze mil anos, uma civilização antiqüíssima, um elo perdido, que seria proveniente da Baixa Núbia, no Egito.
Por isso tudo, e especialmente pela conseqüência intransferível da miscigenação dos portugueses com os silvícolas (que gerou os mamelucos), desses com os negros (que deu os cafuzos) e dos negros com os brancos (dos quais provêm os mulatos), o Brasil Mestiço será uma contribuição ou uma possibilidade de luz para o futuro de uma humanidade cada vez mais sombria, triste e egocêntrica.
Rio de Janeiro – Ricardo Cravo Albin–Jornalista e Escritor